Quarta-feira, 17 de Maio de 2006
Encerramento de maternidades: polémica ou necessidade?

Embora esteja já em período de intensa preparação para exames (e, portanto, menos dedicada às concórdias e desacatos que por ai andam), não posso ficar indiferente a toda a contestação que tem surgido devido ao encerramento anunciado de várias maternidades que não reunem condições viáveis à manutenção da sua actividade. Na verdade, toda esta revolta pasma-me. Eu, naturalmente porque sou menos iluminada do que outros, facilmente percebo que uma maternidade que realiza 400 partos por ano (1,1 partos por dia) através da manutenção de 3 equipas de médicos, enfermeiros e equipamento, é economicamente incomportável (segundo ouvi por ai, cada parto destes representa um custo para o Estado de aproximadamente 1500 €!!!). Aliás, enquanto candidata a futura médica, admira-me que um obstetra que realize, por dia, uma média de 0,36 partos se sinta realizado profissionalmente. E depois ainda há quem venha dizer que é uma vergonha e que os médicos deviam ser obrigados a ir para o interior. Para atender 0,36 pacientes por dia eu é que não ia para lá! Embora exista ainda, felizmente, quem queira ir. E, pelos vistos, quem não queira de lá sair. De forma compreensível, afinal de contas, onde mais se pode obter remunerações por horas extraordinárias como as que são pagas aos médicos dos hospitais do interior, com manifesta falta de clínicos (e de partos, pelos vistos) e, portanto, com necessidade de horas extra. Já para não mencionar o facto de, devido aos 0,36 pacientes que atendem por dia, não haver necessidade de os médicos permanecerem nos hospitais o tempo todo, sendo obrigados a ir jantar a casa ou a dar consultas privadas nos seus respectivos consultórios para se entreterem.. Por isto tudo, realmente, «deviam era mandar para lá mais médicos, que eles têm é falta de pessoal»..

Mas, a polémica não se esgota aqui. Parece que, mais do que a saúde de mães e recém-nascidos, interessa clarificar algumas questões de naturalidade, ou no caso das crianças que irão nascer a Badajoz, de nacionalidade. Reinventa-se um espírito regionalista, que todos julgaríamos morto após o Não à regionalização expresso no último referendo, e passa a fazer toda a diferença nascer em Braga ou em Barcelos. Quer dizer, eu nasci em Lisboa na Estefânia e sou natural de Sintra. Mas isso sou eu, que entendo que a maternidade é só um lugar onde se vai nascer e a naturalidade refere-se à terra de onde somos naturais, portanto, onde nos sentimos em casa. Obviamente, não partilhamos todos da mesma opinião. Talvez esta fosse uma boa altura para referendarmos novamente a regionalização, muito embora se partindo de proposta do governo, com o ódio de estimação que as pessoas parecem ter vindo a cultivar em relação a este, o resultado poderia não diferir grandemente do anterior. O melhor é esperar, já que daqui a uns anos ninguém mais se vai lembrar destas polémicas (pelo menos já ninguém se lembra das 150 maternidades que o PSD encerrou quando Leonor Beleza tutelava a pasta da saúde) e pode ser que o espírito regional se mantenha. Bem, regionalismos à parte, o argumento contra o fecho das maternidades que me parece mais plausível ainda é o da distância. Há casos em que uns quilómetros podem fazer toda a diferença. Porém, a verdade é que a maioria destas maternidades que, como salientavam os populares, têm baixissimas taxas de mortalidade, as têm exactamente porque transferem os casos mais complicados para os hospitais mais frequentados. A diferença é que dentro em breve em vez de serem enviados os mais graves serão todos. Poupam-se alguns minutos de triagem que, por certo, serão importantes. 

Por fim, há ainda quem, num último folego, tente deitar para a praça pública o argumento da desigualdade, que se baseia na teoria de que, encerrando tais maternidades, os ricos irão ter os filhos a badajoz, como aliás já acontece, e os pobres passarão a tê-los em casa, na impossibilidade de se deslocarem ao exterior. Argumento este claramente refutado pelo governo na Assembleia da República, ao anunciar a celebração de um protocolo com a maternidade da dita cidade e ao garantir a deslocação das grávidas para as maternidades mais próximas. Naturalmente, lá vem o argumento nacionalista outra vez: se se mandam os doentes para Espanha, cria-se desemprego médico em Portugal. Talvez sim. De qualquer forma, com a quantidade de espanhóis, romenos, brasileiros e outros médicos actualmente com contrato nos hospitais portugueses, o futuro desemprego médico é quase uma certeza. Há é que evitar as especialidades mais negras e a obstetrícia, com a tendência demográfica europeia de redução da natalidade, é, certamente, uma delas. 

 

publicado por Ana Silva Martins às 22:54
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