Sexta-feira, 3 de Março de 2006
Renovação: Que papel para os jovens?

A elevada abstenção registada nas últimas eleições presidenciais, e que parece ser, cada vez mais, característica da democracia parlamentar, em nada surpreende. Quem faz campanha de rua necessariamente apercebe-se, pelo contacto directo com as pessoas, do crescente desinteresse em relação a políticos, partidos e eleições. Mas este desinteresse é particularmente preocupante no que toca aos jovens (basta ver que a abstenção é mais elevada na faixa etária abaixo dos 40 anos, que não viveu o período do Estado Novo, portanto não valoriza a liberdade de escolha da mesma forma que os que o viveram). Alguns jovens de 19 e 20 anos não se encontram sequer recenseados, vivendo completamente à margem do Regime Parlamentar. Outros, embora sejam considerados cidadãos de pleno direito, optam por não o exercer ou desconhecem mesmo a utilidade do voto. A maioria partilha da opinião de que os políticos são todos iguais e que a actividade político-partidária em nada beneficia a população em geral, antes melhora a vida daqueles que nela intervêm mais activamente. Naturalmente, os ataques pessoais a membros de outros partidos, ou mesmo dentro de um partido, por parte dos políticos, e os frequentes ataques da comunicação social (por vezes menos isenta do que seria «desejável») a caras conhecidas da cena política nacional em muito contribui para o aumento do descrédito no sistema republicano. Frequentemente são os próprios jovens que, tentando captar apoiantes para o seu partido, contribuem para o afastamento de muitos da política.


Continuando a ser fomentado o desinteresse dos jovens nesta matéria, não se auguram tempos nada favoráveis para a Democracia. A verdade é que sem voto não há Democracia e sem Democracia não há liberdade. Assim, parece fundamental ressuscitar as pessoas para a actividade político-partidária. Este será com certeza o grande desafio deste século para a Política. Identificado o problema, começam já a delinear-se caminhos para devolver as pessoas à política. Infelizmente, nem todos seguem a melhor táctica. Ao contrário daqueles que tentam, desrespeitando o princípio fundamental da presunção da inocência, condenar em praça pública adversários da área política oposta à sua, devemos pugnar pela «despoluição da política» apontando alternativas, disponibilizando-nos para a discussão de ideias e projectos. Não basta apontar o dedo, é preciso indicar soluções e, de acordo com as nossas limitações individuais, disponibilizarmo-nos para as personificarmos. As «jotas» desempenham aqui um papel importante, enquanto mobilizadoras e orientadoras dos jovens, oferecendo não só a oportunidade de participar activamente na construção de uma sociedade melhor, como também fomentando o convívio e a amizade entre os seus membros, como ainda, e acima de tudo, contribuindo para a formação de cidadãos plenamente conscientes dos seus direitos e deveres. porque a participação política directa e activa [dos cidadãos] (...) na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático (art.º 109º, CRP), mais do que a tendência política que escolhemos abraçar, importa participar no dia-a-dia do país, contribuindo para a renovação da classe política e para o aperfeiçoamento da Democracia. 

 

[publicado no jornal 100 Letras nº59 disponível em www.malhaatlantica.pt/eslealdacamara/ ]

publicado por Ana Silva Martins às 00:59
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2 comentários:
De João Valente a 26 de Outubro de 2006 às 00:28
Pois é Ana, há um deseinteresse muito grande dos jovens pela política. Mas se calhar se pensares um pouco na óptica deles chegas à conclusão que é necessário mais e melhor do que o impossível jogo limpo que falas.
O papel das jotas? Não estão já elas muito descredebilizadas para serem uma lufada de ar fresco?
É só uma perspectiva de alguém que está de fora.

De qualquer maneira quero dar-te os parabéns pela clareza com que expões a tua opinião e pela pessoa que és!;)
Um grande beijo para ti!
De Ana Silva Martins a 30 de Novembro de 2006 às 21:02
Obrigada Valente!! É um enorme prazer ter aqui no «Concórdias» o comentário de tão ilustre Doutor.. Aproveito para deixar registado o quanto valorizo a tua opinião de jovem não instrumentalizado mas desperto para a sociedade.. Algo raro nos nossos dias..
Naturalmente, as Jotas estão hoje em dia bastante descredibilizadas - disso, penso, ninguém tem dúvidas.. A questão que se põe é se devemos cruzar os braços e encolher os ombros ou, pelo contrário, pôr mãos à obra e arranjar soluções para contornar tal panorâmica.. É que tenho algumas dúvidas de que, desaparecendo as Jotas, os jovens se interessassem mais pela vida política da Nação.. Por outro lado, não sei o que faz com que os jovens que optam por não votar o passem a fazer em determinada altura da vida.. Mas talvez as Jotas tenham um papel a desempenhar na educação para a cidadania.. O que te parece?
É claro que, com as vantagens e desvantagens que isso acarreta, cada pessoa tem a sua concepção de Jota e tenta pô-la em prática.. Mas se formos muitos com ideias similares talvez consigamos mudar alguma coisa, não axas..? Ou talvez eu seja uma sonhadora.. De qualquer forma, é sempre bom ouvir a opinião dos jovens que não estão instrumentalizados como eu. Sim, porque por mais que tente ser imparcial tenho que admitir que a minha forma de ver as coisas é involuntariamente moldada pelos valores associados à ideologia político-partidária que me acompanha desde muito nova e com a qual me identifico. O que não me impede de me manifestar contra medidas das quais discorde.. Afinal de contas, se perdermos a «rebeldia» que nos é permitida enquanto jovens, o que nos resta?
Espero sinceramente que continues a dar-nos a honra de ter aqui os teus comentários..
Bjinhu gd

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