Segunda-feira, 5 de Junho de 2006
Pelo Direito à Qualidade da Informação

 

Na sociedade massificada dos nossos dias, os Mass Media assumem-se como os veículos principais de transmissão da informação. Chegando a milhões de pessoas, o modo como transmitem a informação faz toda a diferença, podendo contribuir, mesmo que de forma não intencional, para a promoção/despromoção de actores sociais, para a condenação/absolvição pública de arguidos e suspeitos, para a eleição/demissão de titulares de cargos políticos, em suma, para a manipulação da opinião pública. Muito embora o direito à informação seja consagrado desde 1975 na nossa Constituição e evocado diariamente para justificar todo o tipo de tropelias aos nossos outros direitos, a verdade é que a informação que nos é fornecida tem na sua origem, muitas vezes, outras motivações que não servir o próximo. Se é verdade que não podemos prescindir da informação que os Media nos facultam, até que ponto podemos confiar na imparcialidade da mesma?

Inevitavelmente, este contra-senso tem motivado a crescente popularidade dos meios de comunicação que, pelas suas características, tendem a ser mais imparciais. É o caso das agências noticiosas como a «Lusa» e a «Reuters» que adoptaram um sistema de simples divulgação de factos, eliminando as entrelinhas, o tom sarcástico com que algumas notícias são apresentadas, os comentários no final das reportagens (e que exactamente pela altura em que são feitos, ficam guardados na memória dos espectadores) e, por vezes, a altura inoportuna em que a notícia é divulgada. Na verdade, tem vindo a ser fomentada, entre a classe, uma ideia de que os jornalistas, enquanto missionários da informação, estão acima de qualquer investigação criminal pela divulgação da mesma. De forma errada, como ficou comprovado com a apreensão dos computadores dos jornalistas que noticiaram o «caso do envelope 9», e que motivou declarações imediatas do sindicato dos jornalistas em defesa do sigilo profissional. Pena que ninguém venha defender da mesma forma o direito da presunção da inocência de todos aqueles que são crucificados em praça pública em nome da informação. Afinal de contas, até onde vai o direito à informação? Por exemplo, nos Estados Unidos, algumas imagens de guerra não são transmitidas. É claro que há logo quem venha de armas em punho defender a liberdade de imprensa e o direito à informação, muito embora essas imagens não sejam transmitidas não por imposição governamental mas por respeito ao próximo e decisão editorial. Embora pouco usual por estas bandas, esta interpretação da liberdade parece-me em consonância com o príncipio existencialista que defende que a nossa liberdade acaba onde começa a do outro, isto é, que o exercício da nossa liberdade deve ser acompanhado de respeito e consideração pelo próximo. Vendo bem as coisas, qual é a utilidade social de transmitir exaustivamente «imagens chocantes» de uma qualquer tragédia que após dois ou três boletins informativos se tornam banais, contribuindo para a vulgarização da problemática social? Mais do que a quantidade, cada vez mais o público valoriza a qualidade da informação. Da mesma forma, universalmente aceite que está o direito à informação, importa agora zelarmos pelo direito à qualidade da mesma.

A concretização desta qualidade da informação terá de passar obrigatoriamente por uma reflexão ética realizada dentro da classe jornalística que leve à valorização da imparcialidade e do respeito pelo público, sem cultivar a indiferença em relação às questões sociais. Mas não só! Também parece necessário que o próprio público exija, como começa já a acontecer, uma informação de qualidade, desprovida de sensacionalismos e preocupações com audiências. De maneira a que, dentro de algum tempo, consigamos distinguir perfeitamente comentadores e jornalistas, notícias e artigos de opinião, sem ser pelo lugar característico que ocupam.


publicado por Ana Silva Martins às 22:36
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